domingo, 6 de junho de 2010

O Mundial pós-VR|46

Os próximos grandes prémios vão ser um teste. Vamos ter um 'cheirinho' do que será ter um mundial de velocidade sem Valentino Rossi. Um flashforward para a era pós-VR|46. O homem até pode ser o melhor de todos os tempos, mas é humano - como as angustiantes imagens dos seus momentos de dor na gravilha de Mugello tão bem demonstraram - e não dura para sempre. Mais dia menos dia vai-se embora, seja para a F1, para o mundial de ralis ou simplesmente para casa, e o campeonato perderá nesse momento o seu maior cabeça de cartaz de sempre. Alguém escreveu um dia que o senhor Dottore é tão importante para o campeonato, que a Dorna lhe devia pagar uma percentagem das receitas de bilheteira dos grandes prémios. Isto resume muito bem a sua influência e prestígio no Mundial.
Agora enquanto estiver em recuperação, e não puder correr, vamos ter uma ideia do que será passar sem ele. E como será?
Valentino Rossi é uma referência neste desporto, é o piloto a bater. A sua pilotagem conjugada com o seu carisma, tão bem rentabilizados mediaticamente, tornaram-no num verdadeiro ícone. Falar de Valentino Rossi é falar de Mundial de Velocidade, e falar de Mundial de Velocidade é falar de Valentino Rossi. Mas só até um dia destes. E apesar de termos vários e fortes valores actualmente na grelha de partida, nenhum lhe chega aos calcanhares em termos de grandeza à escala global, dentro ou fora das pistas.
Este GP de Itália foi apenas uma pálida imagem da era pós-VR|46. Porque ainda não se notou verdadeiramente a sua ausência: apesar de estar a ver a corrida na televisão do hospital, desta vez foi como se tivesse arrancado da grelha de partida e depois cometido um dos seus raros erros, como já aconteceu antes - como em Le Mans ou Indy no ano passado. Na próxima corrida é que se vai sentir a ressaca. A sua box vai estar fechada. Sempre. Não o vamos ter na conferência de imprensa pré-GP, com as suas análises inteligentes e bem humoradas, deixando uma farpa aqui e ali no seu inglês sempre cómico. Em pista toda a gente vai aproveitar a sua ausência temporária para pensar em pódios vitórias e campeonato. E a sua ausência, que o vai afastar irremediavelmente da luta pelo título deste ano, vai originar um desfecho de certo modo injusto; quem quer que seja campeão, vai receber a crítica que se adivinha já: chegou ao título porque o Valentino Rossi se aleijou. Quem for campeão, será sim porque foi o mais forte ao longo de 18 corridas. Se o Valentino se lesionou... as corridas são assim, ossos do ofício. Muita sorte teve ele ao longo da carreira, conseguindo fazer 230 corridas consecutivas sem falhar uma única, sem nunca se ter magoado seriamente, até agora.
Lesionar-se em casa, e no ano em que termina o seu contrato com a Yamaha, parecem ser coincidências dignas da mais rebuscada série de ficção.
E sucessores? Primeiro ponto: Valentino Rossi é único e, atrevo-me a dizer, insubstituível. Quando se for embora, o campeonato vai perder também uma boa fatia de público. Tendo isto em consideração, poderemos ter mais alguém a desempenhar um papel de porta-estandarte do campeonato? Jorge Lorenzo pode ser um deles.
Mas não vai ter o apoio dos fãs de Rossi, que se estão a revelar um pouco fundamentalistas. Pensava que só havia disto no futebol. E Dani Pedrosa, se os problemas da Honda estiverem, com aparentaram em Mugello, resolvidos; mas não é um favorito do público, embora comece a revelar-se mais humano, a deixar transparecer uma personalidade que afinal existe por baixo daquela capa de Asimo. Personalidade de sobra tem Marco Simoncelli, mas a adptação às MotoGP não está a correr nada como esperado. Stoner tem que voltar a encontrar o rumo certo. Spies? Não está - como se previa - a fazer o furor que fez no ano passado nas SBK, mas dêem-lhe tempo... Dovi?
Ou seja, do monoteísmo actualmente existente, quando Rossi deixar o Mundial, teremos um campeonato mais plural, porque Rossifume só há um, e a sua ausência vai deixar um vazio difícil de preencher. Mas vão-se habituando. Já sabíamos que ia acontecer um dia, não é? As consequências da queda deste fim-de-semana apenas nos despertaram para a realidade.

Sem comentários:

Enviar um comentário